A TERAPIA LITERÁRIA

Como escolher livros: sobre as traduções e edições

A escolha da edição é quase tão importante quanto a do livro.

Escolher uma boa tradução é uma das decisões mais importantes quando se pretende ler uma grande obra da literatura universal. Muita gente imagina que, ao escolher um clássico, só por ser um clássico, está entrando diretamente em contato com a obra do autor. Mas, quando lemos uma obra traduzida, existe sempre uma mediação: estamos lendo também a interpretação que o tradutor fez do autor.

O que você precisa saber

Traduzir não é simplesmente substituir palavras de uma língua por palavras equivalentes em outra. Uma obra literária possui ritmo, sonoridade, ambiguidades, referências culturais, registros de linguagem, ironias e escolhas estilísticas que não podem ser transcritos mecanicamente.

Uma mesma frase pode ser traduzida de maneiras diferentes, produzido efeitos completamente distintos. Isso é especialmente importante nas grandes obras porque a forma faz parte do pensamento. O modo como Dostoiévski constrói uma microexpressão de sentimento, a sutileza como Tolstói descreve uma consciência, o ritmo de uma passagem de Homero ou a ironia de Machado de Assis não são meros ornamentos.

Uma tradução ruim pode fazer uma obra extraordinária parecer banal, cansativa e até mesmo confusa. O tradutor precisa tomar decisões o tempo todo: preservar ou adaptar uma expressão idiomática? Manter uma construção estranhamente acadêmica ou torná-la mais natural? Conservar determinada repetição ou eliminá-la? Traduzir literalmente ou privilegiar o sentido? Preservar um termo arcaico ou modernizar a linguagem? Manter um jogo de palavras que tem sentido só na língua original ou substituí-lo por outro equivalente?

Cada uma dessas decisões produz uma experiência diferente de leitura, ao ponto de duas traduções da mesma obra parecerem dois livros diferentes. Uma tradução excessivamente simplificada, que visa tornar a linguagem mais “fluida” para o leitor contemporâneo, frequentemente apaga características importantes do estilo do autor. Outra pode conservar mais da estrutura e do ritmo original, exigindo um pouco mais do leitor, mas oferecer uma experiência literária mais próxima da original.

Não é que exista sempre uma única tradução “correta”. Pode haver até mais de uma excelente. Mas existem traduções com projetos diferentes e o leitor precisa saber o que está escolhendo.

Os clássicos são especialmente vulneráveis

Quanto maior a densidade literária de uma obra, maior a importância da tradução. Em um texto meramente informativo, se uma frase for traduzida de maneira um pouco diferente, a perda é pequena. Em um grande romance, uma palavra pode carregar uma tensão psicológica inteira.

Na poesia, isso é ainda mais evidente. Ritmo, métrica, rima, aliteração e sonoridade fazem parte da obra. Quando lemos um tradução de Homero em prosa, a perda é gigantesca.
 

Na filosofia, o problema assume outra forma. Um termo pode possuir uma história conceitual específica. Traduzir uma palavra de Aristóteles, Platão, Santo Agostinho ou Schopenhauer exige compreender não apenas o significado que ela possui no dicionário, mas

O brasileiro enfrenta grandes desvantagens

Há ainda uma dificuldade prática importante para o leitor brasileiro: nem sempre é possível apontar simplesmente “a melhor tradução” de uma obra.

Isso acontece porque o nosso mercado editorial é bastante desigual. Uma obra pode ter várias traduções, feitas em épocas diferentes, por tradutores com propostas distintas, e nem sempre existe uma edição que reúna, ao mesmo tempo, fidelidade ao original, qualidade literária, boas notas e disponibilidade comercial.

O problema da disponibilidade é frequente. Uma tradução particularmente boa pode estar esgotada, fora de catálogo, com um preço absurdamente caro ou disponível apenas em sebos. Às vezes, a edição encontrada facilmente não é necessariamente aquela que um leitor mais interessado na dimensão literária da obra escolheria.

E muitas vezes simplesmente não temos mais que uma ou duas opções de tradução. Nossas escolhas acabam sendo bastante condicionadas.

Cuidado com as tentações contemporâneas

Há muitas tentações que o leitor contemporâneo precisa evitar. A primeira delas é considerar como melhor a tradução que “flui” mais facilmente. Mas “fluidez” e qualidade não são a mesma coisa. Uma tradução pode ser mais agradável de ler justamente porque eliminou tudo aquilo que causava estranhamento no original. O resultado é uma obra confortável, fácil, mas empobrecida.

O estranhamento é importante! Um autor russo escrevendo no século XIX não deveria mesmo soar como um escritor brasileiro do século XXI. Um grego antigo não tem que parecer um colunista contemporâneo. Embora seja possível oferecer um pouco mais de fluidez ao leitor sem comprometer a profundidade literária.

Uma boa tradução precisa encontrar esse equilíbrio: ser legível sem apagar a distância histórica e cultural da obra. Porque o objetivo é justamente permitir que o leitor atravesse a distância que o separa do passado.

Há ainda uma armadilha muito comum para quem está começando: montar uma biblioteca de clássicos privilegiando edições bonitas e coleções uniformes.

Querido leitor, considere isto: uma capa bonita frequentemente esconde uma edição ruim e uma incompetência para traduzir do original (e traduzir bem). Muitas ainda são belíssimas na capa e por dentro trazem um papel de péssima qualidade, acabamento medíocre, diagramação horrível e muitos erros ortográficos.
Não é errado querer prezar pelo valor estético. Mas, infelizmente, uma “edição de luxo” mascara com frequência a qualidade editorial.

Também é preciso ter cuidado com coleções que vendem a ideia de que determinado conjunto de livros constitui uma espécie de biblioteca definitiva simplesmente porque possui um visual elegante. Uniformidade estética não significa uniformidade de qualidade editorial e literária. Muitas vezes uma biblioteca visualmente heterogênea indica um nível maior de maturidade intelectual do seu dono.

O que oferecemos

Então, para quem está começando um projeto sério de leitura, escolher a edição é quase tão importante quanto escolher o livro.

Por isso, nossas listas privilegiam traduções diretamente do idioma original, que são clicáveis e redirecionam para o fornecedor onde a encontramos mais em conta. Consideramos, sempre que possível, fatores como fidelidade ao original, qualidade literária, clareza para o leitor, aparato crítico, notas, disponibilidade e adequação ao nível de leitura inicial.

Em alguns casos, uma tradução pode ser particularmente recomendável para quem está começando, enquanto outra pode ser mais interessante para um leitor experiente ou para quem deseja estudar o texto de maneira mais próxima do original. Não há, portanto, uma única tradução definitiva para todos os leitores.

Assim, quando houver mais de uma tradução brasileira relevante (consideramos relevantes todos os tradutores mencionados em nossas listas), a indicação de uma delas deve ser entendida como uma escolha editorial (muitas vezes difícil) para nossa biblioteca, e não como uma exclusão de todos os outros tradutores.

Também são consideradas edições em português europeu quando constituem uma alternativa particularmente relevante para uma obra que não possui boa edição brasileira disponível.

Quando uma obra importante não possui atualmente uma tradução em português integral e satisfatória, não anexamos links ou recomendamos uma edição na língua original.

O objetivo é oferecer ao leitor um bom ponto de partida, e não encerrar a possibilidade de comparação entre traduções. Pelo contrário: para obras centrais da tradição, conhecer diferentes traduções é uma maneira valiosa de perceber a riqueza e as dificuldades envolvidas na passagem de uma língua e de uma época para outra.

Valéria Campelo

Valéria Campelo é escritora e criadora do A Terapia Literária.

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