Pessoas mudam de repente e não dá para evitar
Muitos podem achar revoltante, triste ou injusto o que eu vou falar. Mas é apenas verdade.
No telefone, dia desses, uma mulher chorava inconsolada. O filho dela sempre foi um rapaz exemplar, mas começou a namorar e mudou completamente. Saiu de casa sem dizer “tchau” e nunca mais deu notícias, como quem, talvez, se envergonhasse da própria família. Ela ficou devastada, porque jamais esperava essa atitude do seu filho.
Outro dia, também, uma moça com seu bebê no colo desabafava. Seu marido, de repente, foi embora. Eram um casal há sete anos casados. Ele mudou completamente e partiu. E ela ficou. Quase a mesma pessoa do início, mas com um bebê para cuidar.
Não é nada confortável estar no lugar de alguém que sofre as consequências que a mudança do outro deixou para trás. Mas a verdade é que, para todo mundo, existe um momento na vida em que tudo muda. Não porque o mundo mudou. Mas porque, pela primeira vez, percebemos que ele não é o que a gente pensava.
Na Espanha, no século XX, um filósofo descreveu esse fenômeno. E o que ele disse pode te ajudar a passar por momentos como esse com maior serenidade.
Quando somos pequenos, como indivíduos ou até como povo, acreditamos ingenuamente que o nosso modo de viver é “o” modo de viver. Que aquilo que pensamos, sentimos e acreditamos é simplesmente “o humano”. Até que um dia acontece o inevitável: encontramos o outro. E essa descoberta nos desorganiza profundamente.
O “outro” não é necessariamente uma única pessoa. Pode ser um povo, uma comunidade, um amante… ou um completo desconhecido na rede social cuja existência nos revela um mundo fora e completamente diferente de nós.
Para José Ortega y Gasset, grande filósofo do século XX, nada fere mais o homem em sua imaturidade do que descobrir que existe alguém completamente diferente dele, e ainda assim igualmente humano. Alguém que não pensa como ele, não sente como ele, não deseja o que ele deseja. Alguém que tem a “audácia” de não ser o seu reflexo. E é nesse instante que algo se rompe dentro dele. Uma ferida se abre.
Para alguns, isso costuma acontecer lá pelos vinte e tantos anos, quando a vida adulta inicia e estamos ávidos por pertencer. Para outros, isso pode demorar um pouco mais. E é justamente por essa abertura que começamos, finalmente, a amadurecer. Porque depois de encontrar verdadeiramente o outro… O homem nunca mais consegue voltar ao seu pequeno mundo original.
Por um lado, a vida se amplia, complica-se, torna-se mais rica. Por outro, ela também se torna mais desconfortável e perigosa. Porque, por mais natural que seja essa descoberta, isso não significa que convém abraçar cegamente o novo. Nem que a “terra natal” se tornou um lugar necessariamente ruim.
Pelo contrário. Ela poderá ser um porto seguro quando chegar a próxima revelação desconcertante: a revelação de si. Quem sou eu e quem eu quero ser, diante das infinitas maneiras de existir no mundo. Podemos nos perder nas possibilidades ou escolher, conscientemente, quem queremos ser. Para muitos, essa escolha acaba sendo um retorno. Para outros, retornar não é uma alternativa.
Seja como for, o homem que partiu nunca mais será o mesmo. “Tudo o que é humano é, ao mesmo tempo, natal e mortal”, diz Ortega y Gasset. Tudo que nasce já carrega em si a semente do seu fim. Ideias acabam. Certezas desmoronam. Versões de nós mesmos morrem silenciosamente… enquanto outras emergem rumo ao fim.
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