A TERAPIA LITERÁRIA

Ler obras clássicas é uma forma de terapia

Ler os clássicos pode nos fazer compreender melhor a realidade do que uma enorme quantidade de informações acumuladas sobre ela.

Muitas pessoas lutam contra o sofrimento diário, a ansiedade e o estresse sem saber que ler obras clássicas pode ser um grande aliado.

O sofrimento humano muitas vezes não nasce da realidade, mas do seu oposto: a alienação.

Tem gente que sofre o tempo inteiro e interpreta cada silêncio como rejeição, cada crítica como ataque e cada dificuldade como uma prova de que sua vida está dando errado. Para essas pessoas, os fatos são uma coisa. A percepção delas é outra.

Em suma, a alienação é constituída de sentimentos mórbidos que deformam a percepção e a própria inteligência, de modo a perturbar radicalmente nossa visão da realidade.  Nossos sentimentos se tornam desordenados e inflacionados, passando a funcionar como lentes embaçadas. Eles distorcem os acontecimentos, alteram nosso julgamento e nos afastam da realidade.

O pedagogo francês Jules Payot observou esse fenômeno há mais de um século e propôs um remédio incomum: ler os clássicos. Não como passatempo. Mas como exercício de saúde interior.

Os clássicos nos obrigam a sair de nós mesmos e a enxergar o mundo com mais clareza. A cultura literária nos oferece a capacidade de olhar a realidade por perspectivas que não são exclusivamente as nossas. Uma história inventada pode nos fazer compreender melhor a realidade do que uma enorme quantidade de informações acumuladas sobre ela. Porque ela não apresenta apenas acontecimentos. Ela revela relações entre acontecimentos, desejos, escolhas e consequências.

Um bom romance mostra, por exemplo, como uma pequena mentira se transforma progressivamente em uma vida de falsidade. Ou como a busca obcecada por reconhecimento pode fazer alguém sacrificar aquilo que realmente ama. Depois de enxergarmos isso em um personagem, começamos a reconhecer o mesmo padrão na vida real.

É como um mecanismo de conversão: leio um clássico → entro na história como eu mesmo →  encontro uma realidade diferente da minha (ou às vezes parecida) → sou levado a compreender pessoas diferentes de mim e a considerar possibilidades diversas de agir → retorno à minha própria vida → e já não consigo enxergá-la da mesma maneira.

Meu mundo interior se alargou e agora enxergo melhor o mundo exterior. E quanto melhor percebemos a realidade, maiores são as chances de colocar nossas ações no lugar correto dentro dela.

Paralelamente à literatura, a filosofia também desempenha um papel fundamental nesse processo de amadurecimento. Enquanto a arte e a ficção nos fazem vivenciar as experiências humanas, a boa filosofia nos fornece o rigor conceitual para questionar nossas certezas, examinar os fundamentos dos nossos valores e articular racionalmente o sentido da existência. Ela nos ensina a não ser passivos diante das ideias prontas, desenvolvendo a capacidade de discernir a verdade do engano e de fundamentar nossas decisões em princípios sólidos.

É por isso que, em uma época tão cheia de opiniões superficiais, emoções instantâneas e neuroses coletivas, a leitura dos clássicos da literatura e da filosofia é mais necessária do que nunca. Quem tem o senso da realidade deformado perde a capacidade de orientar suas ações. Mas quem aprende a se ancorar na verdade encontra um chão firme sobre o qual caminhar e construir a própria vida.

Valéria Campelo

Valéria Campelo é escritora e criadora do A Terapia Literária.

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