A TERAPIA LITERÁRIA

O outro lado do “burnout”

O homem moderno não sabe descansar. Mas algo escrito no século XX é uma chave para nunca (mais) entrar em "burnout"

O cansaço crônico parece ser uma das marcas do nosso tempo. Ele está por trás da sobrecarga mental que leva muitos ao “burnout”. E também do desequilíbrio familiar que leva muitos casais ao conflito.

Algumas pessoas buscam no trabalho uma realização, mas encontram o estresse permanente. E paralelamente a isso, alguns casais parecem viver uma eterna disputa entre quem está mais cansado para atender cada pequena demanda da vida doméstica.

Está cada vez mais difícil encontrar quem não se sinta sobrecarregado todo tempo. E as crianças estão crescendo sob a impressão de que esse tipo de disposição e atitude é uma forma de vida normal.

Mas existem pessoas que encaram a vida com uma disposição diferente. É como se tivessem uma bateria existencial mais ampla. Elas estão quase sempre em movimento, mas dificilmente estão cansadas ou estressadas demais para fazer alguma coisa.

Qual é o segredo, afinal?

Em meados do século XX, o filósofo francês Louis Lavelle disse algo muito interessante em seu livro Regras da Vida Cotidiana:

“Buscar o repouso no próprio movimento é o único meio para que nem um nem outro sejam jamais uma fuga.”

À primeira vista, parece um paradoxo. Como alguém pode repousar enquanto está se movendo?

Parece que o segredo está em saber encontrar, no próprio movimento da vida, a energia, o ânimo e o prazer necessários para se sentir sempre disposto. É justamente essa disposição que chamamos de realização.

Para Lavelle, só pode se realizar o homem que vive em sintonia com a sua vocação. Esse homem está completamente entregue aos seus objetivos e à sua própria vida, porque é completamente consciente de si mesmo. Quem entende a sua vocação e enxerga um propósito na sua vida, enxerga em toda atividade diária o seu trabalho e a sua missão.

A sua jornada de trabalho não inicia segundo as normas da CLT. Ela inicia ao acordar e termina ao dormir, com a sensação prazerosa do dever cumprido. Toda a sua vida é o seu trabalho, não apenas o seu emprego.

Até as tarefas mais simples ganham significado. A família deixa de ser um peso e os sacrifícios deixam de parecer inúteis. O esforço continua existindo, mas a exaustão da alma desaparece.

Esse é o homem consciente de si e desprovido de todo amor-próprio, segundo Lavelle. Esse filósofo enxergava o amor-próprio de uma forma muito mais profunda que as noções convencionais.

No sentido positivo, amar a si mesmo significa querer se realizar. E esse amor não nos permite acomodar. Ele nos chama ao esforço para nos tornarmos melhores todos os dias, com disciplina.

Mas no sentido negativo, o amor-próprio é o movimento pelo qual o indivíduo transforma o próprio eu em seu centro de referência, e isso o impede de encontrar verdadeiramente o outro. É preciso libertar-se do amor-próprio egoísta para encontrar um amor verdadeiro por si mesmo, pelos outros e pelo próprio Ser.

Por outro lado, o homem ignorante de si frequentemente odeia o seu trabalho. Está sempre buscando uma fuga, uma distração, uma forma de se esquecer. E tudo que atrapalha a sua fuga lhe causa estresse em vez de prazer. Nesse “tudo” está também o outro, com suas necessidades,  defeitos e vulnerabilidades, para as quais o homem dominado pelo amor-próprio não tem muita paciência.

Esse homem normalmente não possui, de fato, um objetivo na vida, porque não tem consciência da sua vocação. Ele tem apenas ideais incertos, não raro desconexos da sua realidade, que foram fabricados “artificialmente”, muitas vezes pela inveja — isto é, pelos desejos que a vida dos outros lhe desperta.

Ele vive cansado. Porque o que mais cansa o ser humano não é o trabalho: é a falta de sentido. É viver uma vida que não parece sua.

Tomemos como exemplo Ivan Ilitch, famoso personagem de Tolstói.

A Morte de Ivan Ilitch narra a vida de um homem infeliz que passou a vida inteira alheio da sua infelicidade. Ele se orgulhava de ser muito correto, trabalhador exemplar e comedido. Casou-se com um bom partido. Conquistou tudo que alguém da sua estatura poderia desejar: status, poder, nome, patrimônio. E somente ao aproximar-se da morte se deu conta de que viveu a vida inteira distraído do que mais importava.

Agora o peso de uma vida sem sentido se manifesta na forma de cansaço, birras e mau humor frequentes. Ora Ivan nota uma louça rachada, ora reclama da comida; ora implica com o penteado da filha; e de tudo coloca a culpa na esposa, a quem passa a não mais ignorar, mas odiar.

Para Lavelle, somente o homem consciente de si é capaz de descansar, de se realizar e de amar.

O segredo não está na quantidade de trabalho ou de sono, mas em viver de maneira inteira e honesta. Porque o verdadeiro descanso não nasce da fuga, e sim do movimento de entrega total à vida.

Valéria Campelo

Valéria Campelo é escritora e criadora do A Terapia Literária.

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