Como virar o jogo
Se você já entendeu o problema da dificuldade de leitura, o próximo passo é saber como agir para reconstruir gradualmente sua capacidade de atenção, memória e compreensão (e os erros que você precisa evitar para não desistir).
[Mas se você pulou a primeira parte, acesse aqui. É muito importante que você leia.]
Apresentaremos a seguir os dez cuidados essenciais para quem deseja adquirir o hábito de leitura e se introduzir nas melhores obras da literatura e da filosofia mundial.
Dez cuidados importantes
1. Comece com livros pequenos e acessíveis
Muitas pessoas escolhem livros que gostariam de ter lido, não livros que conseguem ler hoje. Comece por obras curtas e clássicas, cuja grandeza já se comprovou pelo tempo.
Livros curtos permitem experimentar mais rapidamente a sensação de concluir uma leitura e terminar uma tarefa. E isso ajuda a recuperar uma das coisas mais indispensáveis para a formação de um bom hábito: o senso de agência.
2. Leia menos do que você acha que deveria
Não comece com uma meta de 50 páginas. Comece com:
- 10 páginas;
- ou 30 minutos.
Sessões regulares e distribuídas ao longo da semana tendem a ser mais favoráveis à aprendizagem do que concentrar todo o estudo em poucas sessões, embora a duração ideal dependa de cada pessoa.
O objetivo não é apenas terminar o livro. É treinar a sua capacidade de concentração e permanência. No momento em que você estiver confortável nessa quantidade, experimente aumentá-la aos poucos, até que a leitura não pareça mais um sacrifício e o interesse sincero seja o seu principal guia.
Inicialmente, o objetivo é apresentar ao seu cérebro e até mesmo ao seu corpo um novo tipo de esforço, que busca na capacidade de permanecer em silêncio um benefício superior ao prazer imediato. Gradativamente, esse novo hábito estará se incorporando (e trazendo luz) às suas preferências e inclinações pessoais.
3. Leia quase todos os dias
A atenção funciona muito mais como um músculo do que como um talento. Trinta minutos por dia de segunda a sexta costuma produzir mais resultado do que duas horas apenas aos domingos.
Mas, lembre-se de não permitir que a ansiedade governe essa escolha. Imprevistos acontecem, pessoas possuem rotinas e obrigações diferentes, e toda batalha é inicialmente difícil. Sentimentos de culpa, cobrança, fracasso, antecipação e fixação em quantidade de páginas, não devem tomar o espaço da própria leitura.
A ideia deve ser sustentar o hábito e voltar para ele consistentemente, sempre que uma quebra acontecer, independente do motivo.
4. Leia antes de abrir o celular
Se você tentar ler um livro denso após sair do Instagram, TikTok, YouTube, Netflix, jogos virtuais ou outros tipos de estimulação recreativa, provavelmente será mais difícil. Ao começar o dia consumindo conteúdos altamente fragmentados e alternando rapidamente entre estímulos, na transição imediata para o livro, ele provavelmente parecerá lento e entediante por comparação.
Mas, se ao iniciar o dia não for possível que a leitura seja sua primeira tarefa, leia antes de dormir ou em qualquer horário que isto seja conveniente. O senso de prioridade deve ordenar sua rotina em favor dos seus objetivos.
5. Aceite o desconforto inicial
Muitas pessoas abandonam a leitura porque interpretam a dificuldade de concentração como um sinal de fracasso. Na verdade, é um sinal de treinamento.
Se você passou anos consumindo apenas conteúdo fragmentado, é natural sentir inquietação ao permanecer com uma única ideia por vários minutos. Talvez você se distraia e se perca antes de conseguir concluir um parágrafo. Acredite, não é só com você que isso acontece. Retorne a leitura de onde parou e persista. Esse desconforto faz parte do processo.
6. Não substitua a leitura por resumos
Resumos de livros são úteis. Mas eles não desenvolvem a mesma capacidade que um livro. Você pode usá-los para adquirir um panorama geral de uma obra complexa e tirar dúvidas a respeito de passagens que pareceram confusas. Mas não para substituir a leitura da obra. Seria como trocar uma viagem inteira por meras fotografias do destino.
7. Escolha livros que realmente lhe interessem, mas confie em boas referências
Muita gente associa leitura a obrigação escolar. Mas a leitura se torna muito mais fácil quando encontra um interesse genuíno pelo que ela tem a oferecer. A curiosidade sustenta a atenção melhor do que a obrigação.
Por outro lado, é preciso confiar em critérios objetivos. Uma obra se prova grande quando sobrevive ao tempo. Começar pelos clássicos é uma escolha inteligente.
8. Não paralise nos obstáculos
Como aconselha Mortimer Adler, ao encarar um livro pela primeira vez, leia-o do início ao fim, sem se deter nas partes obscuras e sem se paralisar diante do que não entender de imediato.
Concentre-se no que é capaz de compreender no momento e não se deixe intimidar pelos trechos mais áridos. Não se atenha a parágrafos complexos e não se deixe paralisar por notas de rodapé, comentários e referências que passaram batidos.
Ao concluir a leitura corrida, você constrói um mapa mental completo da obra. É essa visão geral que permitirá, em uma segunda leitura, compreender com clareza aquilo que parecia indecifrável no primeiro contato.
Lembre-se que o objetivo não é ler muitos livros, mas ler bem os melhores. Então, se preciso, guarde aquela obra para ler novamente depois.
9. Faça notas
Registre organizadamente os trechos que chamam sua atenção durante a leitura. Marque com um lápis, transcreva para o bloco de notas, fotografe. Registre da forma como você achar melhor. Ler suas próprias notas e reler passagens marcantes fará uma grande diferença. Isso transforma você de um leitor passivo em um leitor ativo.
Quando você faz notas, sublinha trechos ou escreve reflexões, obriga o cérebro a interagir com a ideia em vez de apenas observá-la passar. E essas ideias ecoam para muito além da leitura, em cada tarefa, acontecimento ou relação do dia a dia.
10. Pratique a oração
A oração pode ser uma ferramenta poderosa quando associada à leitura mesmo para quem não tem uma crença bem definida. Uma oração feita com atenção exige que você permaneça focado em uma única coisa por alguns minutos. Você aprende a perceber quando sua mente se dispersa e a trazê-la de volta ao objeto da prece.
Por outro lado, quem ora frequentemente porque acredita em uma realidade superior aprende a reconhecer os próprios limites, distinguindo entre aquilo que depende de si e aquilo que não depende. Isso pode diminuir a ansiedade e liberar energia mental para além da leitura.
Além disso, motivações profundas costumam ser mais duradouras. A oração ajuda a enxergar o estudo como parte de uma vocação maior: superar a si mesmo, servir ao próximo, aperfeiçoar talentos, honrar a Deus através do intelecto. Quando existe propósito, a disciplina se torna mais sustentável.
A Terapia Literária é uma iniciativa cultural livre. Queremos construir um acervo online cada vez maior focado em autoeducação literária para brasileiros. Apoie esta iniciativa e ajude nosso projeto a crescer.
